Covid-19 e as Pessoas

O "corona vírus" é exponencialmente mais que um problema de Saúde Pública. Para além de social e financeiro, é um sério problema de Saúde Mental.

 

Actuais políticas e convicções de Saúde Pública, de que a convivência com dispersões virais podem e devem ser contidas no séc. XXI, implicam adopção, mais ou menos rígida, de medidas de contenção. Claro é, que se pretende acima de tudo, proteger os mais vulneráveis e prevenir a sobrecarga de um SNS fragilizado, dos seus profissionais, pois como qualquer outro o vírus, ele não irá simplesmente deixar de estar entre nós. A verdadeira resposta a este nível terá de ser imunitária, mediante tratamento eficaz ou por eventual vacina.

Mas por estas medidas é inaudito o impacto que um novo vírus, sobretudo não sendo tão mortal como outros, está a ter e terá em todas as dimensões da vida das pessoas. Como gerou uma negra bola de neve, que encadeia e ameaça tudo e muito mais que o sistema imunitário das pessoas. Ameaça agora tudo na vida e todas as pessoas.

Estas implicam o bloqueio da actividade normal, condicionamentos em todas as suas dimensões, e consequências tanto mais difusas e profundas, quanto maior duração das mesmas.

Por maior que seja a preocupação social e a boa vontade das pessoas, perante estas medidas, elas forçam a radicais e súbitas mudanças mentais nos seus padrões de vida habituais. Na vida pessoal, social, profissional e organizacional. Obrigam subitamente, sem aprendizagem progressiva e sem um desenvolvimento emocional sustentado que as suporte, ao confronto com problemas e adversidades em todos os contextos de vida das pessoas, exigindo de todas elas simultaneamente uma resposta equilibrada e eficaz por forma a evitar uma trágica espiral negativa. Por tudo isto a Saúde Mental está em risco geral agravado, e não apenas a dos profissionais de saúde, que mais sofrem no imediato e indirectamente nas suas vidas pessoais, todo o embate causado pela epidemia covid-19.

No plano Social e de Estado, urge procurar o equilíbrio entre medidas e boas práticas para o controlo epidemiológico, resposta do SNS e económico financeiras, por forma a minorar efeitos e impedir o caminho do colapso. Todavia, a resposta tanto presente como futura, terá de ser individual, de cada pessoa, de cada profissional e de cada organização ou empresa no seu todo.

Os Orgãos de Governação e de Saúde Pública, por melhor que seja o seu empenho e por maior que seja a expectativa das pessoas face a estes, não irão proteger dos efeitos diários e vindouros na vida e Saúde Mental destas. Como os governantes estão a aprender a responder a esta situação, cada Pessoa, terá de aprender muito rapidamente a sobreviver e a encontrar ela própria suporte de vida e soluções, para reagir ao sério desafio que a crise ou "problema corona vírus" trouxe ao Mundo.

Fundamental é lembrar que estamos apenas no inicio do problema, que o corona vírus lançou à Humanidade, e que muitos dos seus efeitos irão ainda sobrevir, proporcionalmente à duração das medidas de contenção.

À pandemia do medo do contágio, geradora de fenómenos de discriminação e culpabilização, irá somar-se a perturbação psicológica (ansiedade, depressão, irascibilidade, adições, violência etc) consequente dos confinamentos prolongados (voluntários ou não) e de toda privação social. Da falência das empresas, da perda de empregos, da incapacidade financeira face às despesas correntes.

 

Não apenas a ansiedade e o pânico irão tendencialmente aumentar, em resultado de todos estes elementos, mas toda a tipologia de perturbações mentais e comportamentais, na medida da capacidade de resposta e equilíbrio mental de cada pessoa. Da capacidade de cada pessoa responder saudavelmente no plano do desenvolvimento mental ao "problema corona vírus".

O quotidiano vivido até aqui, pelas múltiplas distrações que o Mundo de hoje oferece, era propenso ao distanciamento do próprio e à fuga à resolução de problemas e conflitos interiores e relacionais, vitais para o equilíbrio e bem-estar da pessoa. As pessoas já estavam vulgarmente tensas, daí a crescente popularidade de abordagens, que induzem ao relaxamento, mas não ao desenvolvimento dessas capacidades. Acontecia inevitavelmente e sem outra saída, a dependência destas, por ciclos repetidos, entre o aumento de tensões e a necessidade de alivio das mesmas (catarse). Até Freud demonstrou, já no inicio do século passado, que catarse não produz Desenvolvimento Humano, não sendo por isso terapêutica.

Igualmente neste plano, é importante relembrar que Portugal tem os piores indicadores de Saúde Mental da OCDE, que temos o consumo mais elevado dos principais psicofármacos, e que a doença mental é a principal causa de absentismo laboral. A título de exemplo também as adições de todo o tipo, aumentaram assustadoramente em Portugal. Este é, o quadro prévio ao surgimento do "Problema Corona Vírus". Esta mesma, já alertava para a urgente necessidade de Portugal reduzir vulnerabilidades e aumentar a sua resiliência face a eventuais crises. É este portanto o nosso ponto de partida.

Por outro lado é um momento de esperança, de reflexão, de confronto com esses problemas e de necessidade de mudanças que importa começar a realizar, desde já, e que vinham desde há muito a ser desvalorizadas.

 

Mais do que uma oportunidade, é agora uma necessidade rever-se tudo, de aprender novas e melhores formas de estar na vida pessoal, profissional e organizacional. De nos confrontar-mos e aprender-mos a resolver problemas que distraídos deixamos, debaixo do tapete, nas rotinas habituais. De crescer mais que nunca e rápido. De urgentemente, fazer mudanças que jamais sonhava-mos fazer tão cedo. De humildade, de amor, de união e solidariedade, mas também de resposta eficaz e saudável à adversidade.

Em suma de aprender. De Desenvolvimento Humano e Melhoria Contínua.

 

Por: Miguel Dinis

Publicado em 28 de Março de 2020

 

 

 

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